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11 de abril de 2009

Sábado de Aleluia

"Imparcialidade é um nome pomposo para a indiferença, 
que por sua vez é um nome elegante para a ignorância"
G. K. Chesterton


Neste sábado de Aleluia fui almoçar com amigos num pub na pequena vila de Flaunden, Hertfordshire, a pouco mais de uma hora de Londres, já no "countryside". O nome bem comum, Bricklayers Arms, esconde um ótimo "gastropub", recomendado pelo guia Michelin, considerado Pub do Ano para Jantar  pelo "Good Pub Guide 2009" e Pub do Ano 2008 pelo "The Great British Pub Awards", entre outros prêmios. Os preços não são altos, com pratos em torno de 15 libras e uma excelente carta de vinhos também a preços razoáveis. 

O pub fica num lugar muito bonito, e é realmente imperdível para quem visita Londres com um pouquinho mais de tempo para ver além das atrações turísticas básicas. O ideal é ir de carro, mas é possível chegar lá de metrô (Metropolitan Line até Watford) e depois pegar um táxi até o pub (talvez cerca de 15 minutos).




Depois do almoço fomos até Beaconsfield, a 20 minutos de carro, onde viveu por anos e está enterrado o grande escritor inglês G. K. Chesterton (1874-1936). Criador das histórias de detetive do Padre Brown, autor de romances e ensaios, era jornalista por profissão e politicamente conservador. Famoso por suas frases cáusticas e irônicas, a maior parte de aplicação imediata no nosso Brasil de hoje, Chesterton dizia que "não é que não tenhamos calhordas em número suficiente para amaldiçoarmos, o que não temos é bastante homens de bem para fazê-lo", e surpreendia-se com o pequeno número de políticos que eram efetivamente enforcados.

A lápide de seu túmulo foi feita pelo artista e tipógrafo Eric Gill, e hoje está na igreja de Sta. Teresa, perto do cemitério, onde foi substituída por uma cópia, pois o original estava se deteriorando. Sta. Teresa era a paróquia de Chesterton, convertido ao catolicismo em 1922, e a igreja traz várias lembranças do escritor, entre elas uma pedra onde está gravado o belo poema  The Ballad of God-Makers, uma leitura inspiradora para a Semana Santa.

20 de março de 2009

Primavera!

Hoje começou a primavera! Felizmente a temperatura já vinha subindo em Londres há alguns dias, e a semana teve dias de sol radiante. Percorrendo os jardins da cidade podemos ver um dos símbolos do início da estação: os narcisos (daffodils) em flor.


Foto: Susie

19 de março de 2009

Google Street View - Londres

Foi inaugurado hoje o Google Street View de Londres (gostou né Somerfildo?). Para quem ainda não conhece, você acessa o serviço pela página do Google Maps, escolhe um lugar, clica no ícone do homenzinho no canto superior esquerdo do mapa, e pode ver imagens 360º, no nível da rua. O serviço já estava disponível para outras cidades, entre elas Paris e Roma, mas demorou um pouco mais no Reino Unido.

Parte dessa demora deve-se com certeza a reclamações de grupos como o "Privacy International", que sustenta que o Google precisa da autorização das comunidades para exibir suas imagens. Outro oponente de peso é o partido liberal-democrata, o terceiro maior do país, uma espécie de partido comunista mas que preserva a todo custo determinadas liberdades individuais (se é que isso é possível).

Uma curiosidade é que a maioria das imagens que estão disponíveis hoje foram feitas no final do ano passado, então é possível ver algumas lojas ainda abertas do Woolworths, mas não a de Edgware Road, uma das primeiras a fechar, onde hoje é um Waitroses.

A equipe do Google passou mais de um ano tirando as fotos, em cameras montadas sobre carros, e dirigiu 35 mil quilômetros no país. Além de Londres, o Street View está disponível para outras 24 cidades britânicas, entre elas Manchester, Liverpool, Swansea e Edinburgh.

O Google tentou manter a privacidade dos retratados borrando os rostos, e compromentendo-se a tirar imagens se alguém fizer alguma reclamação. Mas sempre escapam algumas, e o jornal "Times" mostra aqui uma seleção de situações bizarras disponíveis no Street Maps, além de comentar algumas falhas.

A imagem abaixo é do carro que faz as fotos para o Google, flagrado em Londres. O autor das fotos (rothko1) postou mais algumas em seu site no Flickr. Esse carro me lembra o videogame Simpsons - Hit and Run, que joguei muito com o Somerfildo, e que tem uma van preta sinistra com uma antena de satélite, que sempre escapa quando você chega perto.

2 de fevereiro de 2009

Fotos da neve

Neve, muita neve!

Hoje eu acordei, lá pelas 8, e estava tudo branco de neve. Não eram aqueles floquinhos de sabão em pó, era neve de Sibéria, de fazer boneco com cenoura no nariz, de afundar o pé.

É a primeira vez que vejo isso no centro de Londres. Segundo o Telegraph, milhares de britânicos estão em casa, sem poder ir para o trabalho, por causa da neve de 1 pé (cerca de 30 cm) que cobriu o país durante a noite. Aeroportos importantes como Gatwick e London City fecharam, grande parte dos trens foi cancelada e os carros andam em baixa velocidade nas estradas que estão abertas.

Vejam abaixo algumas fotos tiradas da minha janela com o macbook, e aguardem novas notícias a qualquer momento!




1 de fevereiro de 2009

Tyburn Tree




Por séculos a menção do nome Tyburn Tree foi motivo de horror para os católicos na Inglaterra. Entre 1535 e 1679 quase 400 católicos foram executados, por se recusarem a abandonar sua fé. Em 1571, a Rainha Elizabeth I mandou construir, no encontro das antigas estradas romanas Tyburn Road (hoje Oxford Street) e Tyburn Lane (Park Lane), o triplo cadafalso, que permitia múltiplas execuções. A estrutura era forte o suficiente para enforcar oito pessoas em cada lado, e pode ser vista na reprodução acima, do quadro "Os 40 mártires da Inglaterra e Gales", de Daphne Pollen (1904- ).

Os primeiros mártires a morrerem no local foram São João Houghton e mais quatro padres que se recusaram a aceitar a autoridade de Henrique VIII como chefe da nova igreja. Isso foi em 1535. O último mártir católico a morrer em Tyburn foi São Oliver Plunkett, Arcebispo de Armagh, em 1679.

Até hoje católicos fazem uma peregrinação anual a Tyburn Tree, que ficava exatamente, caro Somerfildo, naquela "ilha" que você costuma atravessar, entre as duas pistas da Edgware Road, onde acaba a Bayswater Road. Sim, ali há uma pedra redonda na calçada, marcando, desde 1950, o exato lugar das execuções.

Há projetos do conselho de Westminster de fazer um monumento mais adequado às centenas de mártires, o que encontra resistência de alguns porque associaria uma das áreas comerciais mais movimentadas da cidade com a perseguição de católicos.




30 de janeiro de 2009

Mind the gap!

South Ferry, a primeira estação nova do metrô de Nova York em 20 anos, custou US$ 530 milhões e já estava pronta para ser inaugurada, neste mês, quando perceberam que o vão (gap) entre o trem e a plataforma era uma polegada maior do que o permitido pela legislação federal.

A lei, que é direcionada aos deficientes físicos ( "Americans with disabilities", na linguagem politicamente correta federal), tolera um máximo de 3 polegadas - cerca de 7,6 centímetros - de vão. Por isso a inauguração será adiada em várias semanas, para a instalação de uma extensão de borracha, que custará US$ 200 mil.

Já o metrô de Londres divide seus vãos em três categorias: A (pequeno), B (médio) e C (grande). Só que o "pequeno" pode ter até 3,3 polegadas (8,5 cm), e o "grande" pode variar entre 7 e 10 polegadas - 18 a 25 centímetros! Notamos que o inglês com "disabilities" ou é mais lépido e safo ou então sofre muito mais do que seu cumpanhero americano!

Dá para entender porque os passageiros são bombardeados nas estações londrinas com os anúncios de "Mind the gap!" (atenção para o vão!), chegando ao cúmulo de estações onde a frase é repetida continuamente enquanto o trem estiver na estação.

As estações com os maiores vãos são Bank (Central Line) e Waterloo (Bakerloo Line). Reza a lenda que o vão na estação de Bank é enorme porque os operários que cavaram o metrô tiveram que desviar repetidamente da trajetória planejada para não atingir os gigantescos cofres subterrâneos do Banco Central inglês, que fica sobre a estação.


Foto encontrada na internet

23 de dezembro de 2008

Pôr do sol em Parliament Hill


Bonito pôr do sol em Londres, cerca de 4 :30 da tarde, um dia antes
do solstício de inverno - o dia mais curto do ano no hemisfério norte.

22 de dezembro de 2008

Revolucionário

Outro dia fui com Somerfildo ao cemitério de Highgate, onde estão os túmulos de Michael Faraday, George Eliot, Herbert Read e Karl Marx. É natural que, com o fascínio que o esquerdismo exerce entre muitas pessoas de boa fé, o do velho furunculento seja o mais visitado.

Lendo aquelas tão sábias palavras, "os filósofos somente interpretam o mundo de várias maneiras; o ponto entretanto é mudá-lo", lembro-me das sábias palavras (agora sem ironia) de G. K. Chesterton, que afirmou que "o reformador está sempre certo sobre o que está errado - ele está geralmente errado sobre o que é certo". Eu não desejo a ninguém ser vítima de uma dessas tão bem intencionadas "reformas" feitas por marxistas e assemelhados.

Também está na lápide o slogan "Trabalhadores do mundo, uni-vos" - inspiração para uma pichação em uma estátua de Marx em Moscou, após o fim da União Soviética - "Trabalhadores do mundo, perdoem-me", bem mais profunda que a original. Afinal de contas não houve sequer uma experiência concreta de comunismo que tenha dado certo. E quem possa ter dúvida disso pode ver o documentário The Soviet Story (2008), de Edvins Snore.


21 de dezembro de 2008

Almoço de aniversário do Somerfildo

Pra comemorar o aniversário do meu querido Somerfildo, fomos comer no Rose and Crown, em Highgate. O Somer comeu, bem feliz, um nhoque de trufas ("Home-made truffle gnocchi, wild mushrooms, Madeira veloute and red wine syrup"), e eu um peito de pato ("Honey glazed barbary duck breast, smoked bacon hash, savoy cabbage and red wine").

O restaurante foi reformado recentemente, e é bem agradável. Era um gastropub comum, e agora é um restaurante ligeiramente mais sofisticado, mas não muito caro. A comida estava muito boa, recomendamos.

Rose & Crown - Highgate
86 Highgate High Street, London, N6 5HX





Peito de pato ao mel, pure com bacon e repolho ao molho de vinho




Nhoque de trufas com cogumelos selvagens e veloute de Madeira

23 de novembro de 2008

London Song, por Ray Davies

Ray Davies, o fundador, cantor e compositor do The Kinks, autor de sucessos como You Really Got Me, é para muitos o "Padrinho do Brit Pop".  Fez músicas famosas sobre Londres, e em Waterloo Sunset diz que "não preciso de amigos / contanto que contemple o por do sol em Waterloo / eu estou no Paraíso".

Mas tem essa outra música dele sobre Londres, que fala de um monte de coisas da cidade, e encontrei no You Tube essa montagem, muito bem feita, que mostra os lugares que ele canta, e faz referência aos temas dos post anteriores de hoje. Ele fala de William Blake, autor do retrato nada positivo de Londres no final do séc. XVIII, e de Highgate, a colina (e bairro) de onde, diz, num dia claro, se pode ver Leicester Square. Veja o vídeo!





There's a room in a house in a street in a manor in a borough
That's part of a city that is generally referred to as London
It's a dark place, a mysterious place
And it is said that if you're born within the sound of Bow-Bells
You have the necessary qualifications to be christened a Londoner

[It's a cruel place, it's a hard place]

But when you think back to all the great Londoners
William Blake, Charles Dickens, Dick Whittington,
Pearly kings, Barrow boys, Arthur Daley, Max Wall
And don't forget the Kray twins

But if you're ever up on Highgate Hill on a clear day
You can see right down to Leicester Square [London, London]
Crystal Palace, Clapham Common, right down to Streatham Hill
North and South, I feel that I'm a Londoner still [London, London]

Chiswick Bridge to Newham and East Ham
Churchbells ring out through the land
You were born in London, England

[London, London, through the dark alley-ways and passages of London]

And there's a tap by a reservoir, leading to a stream,
That turns into a river estuary that eventually opens to the sea
[London, London]
And there's a docker by a wharf, sending cargo overseas,
Unloading foreign trade from a large ocean vessel
In the mighty metropolitan port of London

[London, London, through the dark alley-ways and passages of London]

When I think of all the Londoners still unsung
East-enders, West-enders, Oriental-enders
Fu Manchu, Sherlock Holmes, Jack Spock, Henry Cooper,
Thomas A'Becket, Thomas More, and don't forget the Kray twins

There's a part of me that says "Get out"

O verdadeiro mapa do metrô de Londres

O diagrama do metrô de Londres foi criado em 1931 por Harry Beck, um empregado do London Underground, que o desenhou em seu tempo livre.

Antes de Beck, o mapa tinha distâncias precisas. Hoje é mais fácil de ser consultado, mas não corresponde em nada à realidade:


fonte: wikimedia

Veja agora o mapa com as distâncias e trajetos reais:






Lugares - Highgate

London, por William Blake (1757-1827)


I wander through each chartered street,
Near where the chartered Thames does flow,
A mark in every face I meet,
Marks of weakness, marks of woe.

In every cry of every man,
In every infant's cry of fear,
In every voice, in every ban,
The mind-forged manacles I hear:

How the chimney-sweeper's cry
Every blackening church appals,
And the hapless soldier's sigh
Runs in blood down palace-walls.

But most, through midnight streets I hear
How the youthful harlot's curse
Blasts the new-born infant's tear,
And blights with plagues the marriage hearse.

16 de novembro de 2008

Londres abandonada

Derelict London (Londres Abandonada) é o nome do site criado por Paul Talling, um acervo impressionante de imagens de lugares abandonados na cidade de Londres. O visual e a navegação do site são horrorosos, eu diria mesmo "derelict", fazendo juz ao propósito de Talling, mas as fotos são muito interessantes.

Dividido em seções como Pubs, Cemitérios, Casas, Veículos, entre muitas outras, lá podemos encontrar imagens impressionantes de prédios abandonados, e há até mesmo uma seção de Pessoas - sim, pessoas abandonadas - onde vemos fotos de bebuns e mendigos, em meio a punks, chavs e outras figuras estranhas.

Como diz o próprio autor, não se trata de uma compilação de imagens turísticas convencionais - pois difícilmente precisamos de mais uma dessas - e sim de uma mostra da vida diária em Londres.

Há uma seção especial dedicada à Battersea Power Station, ao sul do Tâmisa, transformada em ícone pop na capa do disco Animals, do Pink Floyd. O edifício, fechado desde 1983, ficou abandonado por anos, mas suas quatro chaminés características permanecem, preservando a lembrança daquela que foi um dia a maior construção de tijolos da Europa. Eu tirei a foto abaixo em fevereiro de 2008, na época em que a usina abandonada foi usada como cenário de Batman - The Dark Knight. Na ocasião, moradores das redondezas acharam que estava acontecendo um ataque terrorista no local, mas era apenas uma explosão feita pela equipe de filmagem.

Paul Talling acabou de lançar um livro, esse bem cuidado e bonito, com fotos de seu projeto. Vale a pena dar uma olhada.


Tempo

Como passa rápido o tempo! Eu não entendia muito bem quando meus pais me falavam isso, e nem ligava. Mas é verdade.  Sinto, como Mário Faustino, que o mês presente me assassina.
















Sinto que o mês presente me assassina,
Os derradeiros astros nascem tortos
E o tempo na verdade tem domínio
Sobre o morto que enterra os próprios mortos.
O tempo na verdade tem domínio
Amen, amen vos digo, tem domínio
E ri do que desfere verbos, dardos
De falso eterno que retornam para
Assassinar-nos num mês assassino.

(trecho de poema de Mário Faustino)

9 de novembro de 2008

Eu moro em Hoxton há 81 anos e meio















Foto: 
Martin Usborne


Joseph (Joe) Markovitch vive em Hoxton há 81 anos e meio. Ele nasceu perto de Old Street, em 1° de janeiro de 1927. Ele se lembra de quando abriu o primeiro supermercado Tesco, nos anos 1920, em Bethnal Green, e tinha uma foto do filme My Fair Lady, e todo mundo usava chapéu. As pessoas não usam mais chapéu hoje em dia. Nem ele.

O fotógrafo londrino Martin Usborne avistou Joe pela primeira vez no verão de 2007, próximo a seu estúdio em Hoxton Square. Falou um pouco com ele, tirou umas fotos, achando que Joe era um mendigo ou bêbado, um tema excelente para um ensaio fotográfico. Começou a conversar com ele com mais frequência, e fotografou-o por meses, com a intenção de "ouvir a história de uma minoria negligenciada e aprender um pouco sobre os arredores de Hoxton". Acabou simpatizando imensamente com Joe e suas opiniões peculiares sobre as coisas.

O resultado desse encontro foi registrado em fotos, que mostram Joe em várias situações nos arredores de Old Street, além de objetos como chaves e rebites, que fazem ou fizeram parte da vida de Joe. E Usborne também foi anotando o que Joe falava, observações sobre a sua vida e a vida em geral. Com isso montou uma belíssima exposição de fotos dele e textos de Joe, misturando fotografia com sociologia, com um resultado supreendente.

A exposição ficou montada por apenas três dias, no Candid Arts Centre, atrás da estação de Angel (Islington), e eu tive a sorte de estar passando por ali num desses dias. E não me arrependi.

29 de outubro de 2008

Neve em Londres em outubro















Foto: Getty / Telegraph

Ontem, dia 28, lá pelas 10 da noite, começou a nevar em Londres, acontecimento totalmente fora de época.

A última vez que foi registrada neve em Londres no mês de outubro,  segundo o Met Office (Departamento de Meteorologia), foi em 1922.

Na manhã do dia 29, próximo ao Hyde Park, alguns carros ainda estavam parcialmente cobertos pela neve.